da Macpress
De todas as frutas do pomar de Silicon Valley, a única que resistiu ao tempo é a maçã da Apple Computer, que completa amanhã, 1º de abril, 30 anos de uma história marcada por sucessos e fracassos — mais sucessos que fracassos, para a alegria de seus entusiastas, que celebram a consolidação da marca da maçã na história da tecnologia.
A consolidação da marca da maçã nessa história começou em 1976, quando três estudantes universitários decidiram abandonar os estudos para fundar a Apple Computer, dedicada a construir e vender computadores. Eram eles Steven Paul Jobs, um prodígio do marketing então com 21 anos, Stephen Gary Wozniak, fera da engenharia, cinco anos mais velho, e Ronald Gerald Wayne, de quem pouco se fala e que tinha à época 41 anos.
Apesar de terem fundado a empresa no "dia da mentira" (1º de abril), o trio não estava para brincadeira. Seu primeiro produto foi um kit para montagem de computador do tipo "faça você mesmo", o Apple I, projetado na garagem da casa dos pais de Jobs.
Um ano mais tarde, em 1977, nascia o microcomputador Apple II. Impulsionado pelo posterior lançamento da primeira planilha eletrônica de cálculos, a VisiCalc, o Apple II tornou-se sucesso entre engenheiros e usuários leigos. Embora não tenha sido o primeiro computador pessoal, foi o mais bem sucedido e ao qual atribui-se a gênese da revolução na informática e da influência cultural e tecnológida da Apple.
Nessa época a Apple já tinha uma equipe de projetistas e uma linha de produção. Foi dela que saiu o Apple III, em 1980, já em meio ao desafio mercadológico de concorrer com IBM e Microsoft no lucrativo mercado da computação corporativa. No afã de dar continuidade à revolução que iniciou, Jobs cometeu o que talvez tenha sido seu primeiro erro: mandou seus projetistas eliminarem a ventoinha do Apple III, o que resultou na necessidade de substituir milhares de unidades danificadas por superaquecimento. Três anos mais tarde, foi lançada uma versão revisada do Apple III, mas a imagem da máquina já tinha sido irremediavelmente arranhada pela falha de projeto do modelo anterior.
IBM e Microsoft conquistavam cada vez mais mercado da Apple usando um modelo de negócio fundamentalmente diferente: hardware de padrão aberto, surgido com o IBM PC e distribuído com o sistema operacional baseado em disco da Microsoft, ou MicroSoft Disk Operating System — o famoso MS-DOS.
O Lisa, novo modelo de computador da Apple, foi lançado em 1983 em meio ao desafio de concorrer com o padrão aberto da dupla IBM-Microsoft. O Lisa, no entanto, tinha uma novidade que mudaria para sempre os rumos da informática: a interface gráfica e o mouse, que viriam a ser a base da computação atual e substituiríam o arcano sistema baseado em texto. Mas nem isso conseguiu minimizar dois sérios defeitos do Lisa: o preço e a falta de programas escritos para ele. O mercado decidiu não pagar os quase 10 mil dólares cobrados pela Apple pela inovação e concluiu que o produto da rival IBM representava uma melhor relação custo-benefício.
Mas a Apple estaria para dar o troco no ano seguinte, em 1984, lançando o enormemente popular Apple Macintosh, do qual o mundo tomou conhecimento no lendário comercial baseado no romance "1984", de George Orwell, exibido no intervalo do Superbowl. Foi com o Macintosh que o mercado descobriu o desktop publishing — a arte de permitir ao próprio usuário, em casa ou no escritório, criar e editar em ambiente gráfico suas próprias cartas e material impresso com qualidade até então só disponível nas gráficas.
Atenta ao potencial da interface gráfica do Macintosh e do poder do desktop publishing, a Microsoft copiou o que pôde dessa interface, inseriu seus elementos básicos nos modelos primordiais do que viria a ser o sistema operacional Windows e licenciou-o a fabricantes de computadores que copiavam o IBM PC. Enquanto os clones do PC proliferavam, Jobs cometeu o que é considerado por muitos seu maior erro à testa da Apple Computer: manteve a plataforma Macintosh fechada e não licenciou seu sistema operacional para outros fabricantes de hardware. Com isso, as vendas do Macintosh caíram para uma fração dos reluzentes números dos PCs.
A queda na popularidade do Macintosh — não por falta de qualidade, mas por estratégia de mercado — coincidiu com uma disputa interna pelo poder na Apple entre Jobs e o novo CEO, John Sculley. Em 1985, a diretoria da empresa pôs-se ao lado de Sculley e Jobs foi convidado a retirar-se.
Já fora da Apple, Jobs fundou a NeXT Inc., cujo foco era produzir computadores de design futurista pré-instalados com o sistema operacional NEXTSTEP ("próximo passo"), derivado do Unix. Apesar de poderosos, os computadores NeXT nunca conquistaram o mercado, em parte devido a seu alto preço.
Sem Jobs no comando, a Apple lançou-se à aventura de produzir seu primeiro modelo portátil e lançou, em 1989, o Macintosh Portable. Pesado (7,2 kg) e desajeitado, o Macintosh Portable era considerado mais o que, na gíria de hoje, poderia-se chamar de "mala" do que de portátil.
Tendo aprendido várias dolorosas lições com o Portable, a Apple procurou projetistas industriais para trabalhar num substituto. Adotou uma estratégia baseada em três máquinas portáteis, uma das quais produzida pela Sony, empresa que tinha forte reputação de projetar aparelhos eletrônicos pequenos, duráveis e funcionais. O que a Sony fez foi aproveitar as especificações do Macintosh Portable e reduzir o tamanho da bateria, do disco rígido e da tela. Nascia o PowerBook 100, em 1991, que estabelecia um marco na história do projeto de portáteis e fincava as raízes do moderno layout dos computadores portáteis. O PowerBook 100 ajudou a solidificar a reputação da Apple de produtora de desktops e laptops de qualidade.
No mesmo ano (1991), a Apple promoveu uma grande reformulação no sistema operacional do Macintosh e lançou o System 7. Voraz devorador de recursos de hardware, o System 7 apresentou ao mundo a interface colorida, simplificou operações comuns e introduziu novas e poderosas capacidades de trabalhar em rede com outros computadores. O System 7 tornou-se a base para o que viria a ser o Mac OS até 2001.
A receita da Apple começou a aumentar devido ao sucesso do PowerBook e de diversos outros produtos lançados nesse período. A imprensa passou a respeitar e a ouvir a voz da empresa. Nascia o esporte de especular sobre seus projetos. O período de 1989 a 1991 foi chamado de "primeira era de ouro" do Macintosh.
Então veio a Microsoft e lançou o Windows, um sistema operacional muito parecido com o do Macintosh em termos de aparência e facilidade de uso que, combinado com a possibilidade de ser rodado em hardware barato e com uma crescente oferta de software, acabou tornando-se o padrão do mercado. Nascia aí a expressão "Wintel", designando a combinação de sistema operacional Windows em hardware com processador Intel.
A Apple, por sua vez, confiando em suas altas margens de lucro, das quais necessitava para sustentar seu maçico investimento em pesquisa e desenvolvimento, nunca deu uma resposta à altura. Ao invés, decidiu que deveria processar a Microsoft por plágio. A ação arrastou-se nas cortes judiciais por anos até que um acordo de US$ 150 milhões pôs fim à batalha.
A ação acabou revelando-se um tiro saído pela culatra para a Apple. Não por tê-la perdido, mas por ter atrapalhado o gerenciamento da empresa enquanto uma crescente e incontornável animosidade entre seus engenheiros acabou por provocar o fracasso de alguns produtos e a perda de prazos, destruindo a reputação de invencível da Apple.
Enquanto isso, a empresa ousou aventurar-se no campo dos eletrônicos de consumo lançando a câmera digital QuickTake, que nunca decolou, e o Newton, o pioneiro dos computadores de mão, lançado em 1993. Apesar de ter sido um fracasso comercial, o Newton estabeleceu a base de uma nova categoria de computação que foi a precursora e inspiradora de aparelhos como o BlackBerry, o Palm Pilot e o Pocket PC.
Nos anos 90 a Apple ampliou grandemente sua linha de produtos, mas falhou em explicar adequadamente ao público porquê deveria optar por eles. Essa falha de comunicação, associada ao custo de recalls amplamente divulgados e à crescente popularidade do Microsoft Windows, quase levou a Apple à falência na segunda metade dos anos 90. A empresa, que antes era referência no mundo da computação, agora fôra reduzida à categoria de irrelevância.
Ao ver que seus esforços por fincar uma estaca no mercado da computação pessoal e melhorar seu sistema operacional estavam resultando em sucessivos fracassos, a empresa decidiu trazer de volta seu filho pródigo e fazer dele sua maior e última esperança. Em 1996, a Apple comprou a NeXT e colocou Steve Jobs de volta em seu posto de líder da empresa.
Em dez anos, a liderança de Jobs conduziu a Apple à uma espetacular ressurreição com um sucesso após outro. Começando pelo colorido e translúcido iMac, em 1998, o sucesso prosseguiu com o novo sistema operacional Mac OS X, em 2001, continuou com revolucionário iPod, no mesmo ano, e se mantém até hoje com o serviço musical online iTunes Music Store associado ao iPod, em 2003.
Embora atualmente a Apple ainda detenha exíguos 4% do mercado mundial de computadores, analistas dizem que seu atual sistema operacional representa, pela primeira vez, uma ameaça real ao produto similar da Microsoft. Muitos deles esperam que o dominante iPod, que funciona tanto no PC/Windows quanto no Macintosh, e os novos computadores Apple baseados em processadores Intel, aumentem consideravelmente sua fatia no mercado da computação.
Para vencer esse desafio, a Apple pode, ironicamente, acabar ganhando uma mãozinha de sua maior rival, a Microsoft, por causa da inépcia da empresa de Bill Gates em atualizar e lançar uma nova versão de seu sistema operacional Windows. Adiado sucessivas vezes nos últimos três anos e agora prometido apenas para o início de 2007, o mais recente anúncio de adiamento, ocorrido neste mês, deflagrou uma crise interna e externa de confiança sem precedentes na história da empresa de Bill Gates. Seus funcionários não escondem sua insatisfação em trabalhar para a empresa sob a batuta do CEO Steve Ballmer. Muitos vêem nisso a melhor oportunidade da vida da Apple para dar o pulo do gato e atrair a luz de todos os holofotes sobre si com a próxima versão do Mac OS X para seus computadores com processador Intel, prometida pela empresa para este ano.
A agenda de lançamentos da Apple e as dificuldades da Microsoft são os ingredientes que garantirão um ano de 2006 cheio de surpresas e que poderá consolidar a marca da maçã da Apple Computer como aquela que será lembrada como a mãe de muitas coisas que fazemos hoje — do desktop publishing ao download de mídia digital.
Do rústico início em uma garagem doméstica a uma empresa cuja marca de US$ 5,3 bilhões — a mais valorizada do mundo em 2005 — é tão mundialmente reconhecida quanto a da Coca-Cola, tendo vendido US$ 13,93 bilhões em produtos e serviços e lucrado de US$ 1,34 bilhão em 2005, em toda sua história a Apple Computer nunca foi tão rica e poderosa. Empresas que sobrevivem por 30 anos são excessão, e não regra, especialmente em um mercado deveras volátil como o da informática e menos ainda experimentando tanto sucesso. Que o digam a Compaq, de quem só sobrou a marca vendida pela HP, e a IBM, que abandonou o mercado de PCs.
Parabéns, Apple Computer! Que seu aniversário de 30 anos possa ser celebrado mais 30 vezes.



