Saudações aos empávidos.

Avisado por alguns leitores do blog, resolvi assistir a tal reportagem do Jornal Hoje e ver qual era a linha adotada na reportagem sobre o bullying. Sempre achei o JH é o pior jornal da rede Globo, considero o Jornal da Globo bem melhor, por sinal o único da tevê aberta que as vezes eu assisto. Não tenho paciência com o JH principalmente pelas suas reportagens com diquinhas genéricas (aquelas coisas na linha de “o estudante precisa estudar bastante e se concentrar na hora de prestar o vestibular” ou “o consumidor deve não gastar mais do que ganha para não contrair uma dívida”….OH REALLY???) e seus apresentadores insossos que volta e meia se metem em diálogos pastelões. Até me lembro de um momento constrangedor com um diálogo mais ou menos assim, depois de uma reportagem sobre celulite: “Eu sei que você não tem problema de celulite, né Sandra? Iar iar iar!” (aliás, me pergunto até hoje como é que ele sabia, anyway)

Bom, acompanhem-me após o link, onde darei minhas considerações acerca de mais essa bobagem do jornal vespertino global.

É incrível e ao mesmo tempo estarrecedor como em pleno século XXI ainda vemos certos relampejos de pânico moral contra os videogames. E em se tratando do Brasil, ainda por cima esse relampejo venha do mesmo lugar. Sim, pois em janeiro do ano passado eu já havia escrito um artigo entitulado “A síntese do jornalismo rasteiro”, em que critiquei duramente o pânico moral do Jornal da Globo contra os jogos Counter Strike e EverQuest. Algum tempo depois, no artigo que expliquei o que é pânico moral, eu já havia deixado claro a baixa qualidade do jornalismo praticado pelo JH:

“… Uma reportagem superficial, apressada e parcial, carente do básico no bom jornalismo: informação. Além da repetição quase metódica, da sentença vaga e sem qualquer argumento técnico, de um juiz leigo, o que aconteceu pode ser resumido como algumas externas travestidas de reportagem. Não houve qualquer tentativa de explicar a diferença entre o jogo oficial e um mapa criado por um jogador, inclusive, faltou um mínimo de curiosidade de procurar saber sobre quem o criou. Cheio de erros grosseiros e comentários constrangedores do tipo “o jogo impressiona por seu realismo” e “o jogo foi desenvolvido nos Estados Unidos e modificado no Brasil”.

Também não há qualquer informação e sequer é mostrada alguma imagem do jogo EverQuest, deixando os telespectadores sem ter noção alguma sobre esse título… “

Sobre a reportagem em si

Não sei para quem já assistiu o video, mas para mim ficou claro a ausência de ligação entre o game Bully e o conteúdo restante da reportagem, cuja pauta real era a discussão sobre tornar o bullying crime no estado de Pernambuco. Era como se fossem duas reportagens distintas, uma descolada da outra. Pareceu-me que o game foi inserido ali de forma apressada, na última hora, para quem sabe gerar alguma polêmica e apimentar a matéria. Um jogada tacanha, típica de jornalismo de baixa qualidade. Para quem ainda não assistiu a matéria, ela está aqui:


Caso o video não apareça, acesse aqui

Tirando o game da jogada não há nada absurdo em relação sobre a pauta da reportagem, que originalmente tratava da tipificação do bullying como crime e entrevista algumas pessoas em Recife sobre o assunto, entre estudantes e uma professora de direito, um psicólogo e dois rapazes que sofreram abusos. Já sobre o game, que nada tem a ver com o contexto apresentado ali, a reportagem é um festival de erros. Para início de conversa, de onde que eles tiraram que o game Bully “estimula o preconceito”? Quem estimula o preconceito de fato, são os super jornalistas ao usar a desinformação para atacar um videogame. Percebam também como a fala do psicólogo em nada tem a ver com o jogo, mas a edição do jornal tentou de forma oblíqua fazer o telespectador relacionar as duas coisas.


Que papelão, hein, senhores jornalistas?

Outro erro grosseiro é a descrição do jogo absolutamente falsa e equivocada da repórter, ao dizer “…nele (o jogo Bully) os competidores são estimulados a perseguir os estudantes mais gordinhos, ou os chamados nerds, e a bater neles…” Que papo era aquele de “competidores”? Desde quando Bully é um jogo multiplayer? Fora que não se trata de algum tipo de competição, e sim de um game que tem enredo, personagens e narrativa, em que o jogador tem que sobreviver a um ambiente hostil. Para tal, é necessário realizar uma série de tarefas e inclusive ganha a amizade e confiança de diferentes tribos de estudantes. Esse trecho da análise do Finalboss não me deixa mentir:

“De forma análoga ao que se vê em outros jogos da Rockstar, em Bully o jogador é colocado no meio de vários grupinhos diferentes: os brigões, os nerds, os atletas, os mauricinhos, os ”greasers” (a galera que se amarra em ficar mexendo em mecânica na garagem do campus) e o pessoal da cidade. Sua impressão perante cada grupo se dá por suas ações no dia-a-dia tradicional, ou na realização das missões principais. Completar certas missões o fará ganhar ou perder respeito com elas — escoltar o gorducho nerd até seu armário fará os brigões te olharem torto, enquanto os quatro-olhos de moleton verde passarão a vê-lo como um sujeito legal. Além disto, vez por outra alunos pedirão favores ao jogador que poderão ser realizados em troca de dinheiro ou outros benefícios, inclusive de prestígio com as facções. Outra coisa que influencia é sua apresentação: dependendo do que estiver vestindo — ou até mesmo seu corte de cabelo — afetará como você é percebido pelos outros.”

A repórter também mentiu quando falou que os tais competidores eram estimulados a perseguir e bater nos outros. Como prova disso, destaco esse trecho da análise do Uol Jogos:

“Aqui, o limite da violência é espancar o adversário com um taco de beisebol, por exemplo, mas sem mortes. Um pouco mais espinhosa é a violência moral, pois você pode aplicar um “bullying” nos oponentes, que, consiste, basicamente, em humilhá-los, ainda que o game não incentive essas ações. No lado amoroso, o máximo que acontece são beijos na boca com várias garotas (e também com alguns garotos). Drogas, nem pensar. Enfim, não tem nenhum conteúdo mais forte que outros jogos ou filmes da mesma classificação etária.”

É óbvio que como todo jogo da Rockstar, Bully é politicamente incorreto e tem seus momentos grotescos. Exatamente como aponta a mesma análise do Uol Jogos:
“Apesar de mais inocente, o título tem sua cota de controvérsia, mas muito mais leve que um “Manhunt” ou próprio “GTA”, tanto que ganhou a classificação “Teen” (apropriado para acima de 13 anos) pela ESRB, órgão americano que determina a indicação etária para os jogos.”

Se a reportagem do JH se limitasse a noticiar o ocorrido em Pernambuco, seria uma reportagem correta. Mas ao apelar para o pânico moral como forma de criar uma sensacionalismo e alimentar o preconceito contra os videogames e os jogadores, a qualidade e o compromisso com o bom jornalismo foram para o espaço. Mas sem dúvida a cereja do bolo foram os comentários constrangedores dos âncoras-pastelões. O pior de tudo foi a Sandra Annenberg em um ataque de grosseria afirmar sem a menor vergonha que Bully é “jogado por covardes”. Ou seja, de acordo com a declaração imbecil da jornalista e levando em conta as três versões disponíveis de Bully, poderíamos concluir que existem milhões de “covardes” por aí. Ok, quem joga um game é covarde, mas e quem pratica abusos contra colegas de escola na vida real? Além do mais, então alguém que joga GTA é bandido? Quem joga um game de guerra seria um homicida? Santa paciência…

Pois é amigos, mais um ataque de pânico moral para a coleção, mais uma demonstração de ignorância, preconceito e má-fé. Bullying é um tema sério, que não deveria servir de veículo para um ataque gratuíto contra os jogos eletrônicos. E se é para alguém criticar videogames, que o faça pelos motivos certos e com argumentos e lógica.

Abraços e até o próximo post.

*P.S: ainda não pude revisar o texto. Caso haja algum erro, me avisem que corrijo.

André V.C Franco/AvcF – Loading Time.